quarta-feira, 29 de julho de 2009

O vazio. É isso. O vazio da alma, em frente ao computador, sob a luz branca do escritório. Ouço um pássaro cantar, ao longe, sua alegria frágil e provocativa. É ele lá fora, ou sou eu, buscando algo vivo, algo orgânico no período entre oito e seis horas da tarde? Ele canta para o céu e para o sol, ele sabe que possui o sol e o céu, e o sol e o céu possuem ele também, mas eu tenho apenas minha poltrona reclinável. Sei que o sol está lá, imperativo, mas não posso senti-lo. Sou impedido de senti-lo, de sentir meu suor escorrendo pela testa e sentir o torpor quase lisérgico do calor do meio-dia porque o ar-condicionado funciona perfeitamente. Sobre minha mesa, pastas e planilhas e um buquê medíocre de flores artificiais. Elas rejeitam a água, a terra e a vida. Florescem mediocridade. Estas flores me impedem de chorar. Sim, já chorei pela beleza de uma única flor, altiva e viva no jardim, a prova divina que deus não precisa de altar para existir, basta um pouco de terra úmida. Mas daqui só vejo a maldita flor artificial na minha frente.

domingo, 21 de setembro de 2008

A Ínfima Mariposa


Estava em casa quando vi, de longe, algo pequeno e escuro no beiral da janela.

Curioso, cheguei mais perto e descobri que era uma mariposa, minúscula, quase um nada de vida. Talvez chegasse a um centímetro, talvez nem isso, e sua cor era um bege desbotado. Olhei para aquele ser com um ar de superioridade - eu grande e ela, quase nada.
Então, a pequena mariposa virou seu corpo até ficar de costas para mim, mexeu um pouco suas asas e alçou vôo pela janela, em direção ao céu azul.
E eu continuei no chão.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fio de corte


Onde estão as vísceras?

Onde está o sangue jorrando pelas artérias?
Vamos descer ao porão
Não tenhamos medo
Lá é escuro e frio
Não tenhamos medo
Vamos esmurrar o espelho e a vergonha
E gritar
Vamos acender uma vela no breu
E num pedaço de papel
Desenhar nossas faces magras
Vamos flertar com a insanidade
Fiquemos nus
A escrever pelas paredes, a escrever em nossos corpos frágeis
Poemas crus, duros como um soco na cara
Empunhando-os como navalha pronta
Para golpear a carne
Vamos ver o verbo destrinchar nossas entranhas
E em meio ao sangue quente de nossas vísceras
Parir dores ocultas
E sagradas verdades

sábado, 13 de setembro de 2008

Vê,
A vida urge
Vê que a rosa do campo
Não espera para desabrochar
Desabrocha apenas
Que as ondas do mar
Nada planejam
Onde irão nascer,
Ou onde irão pousar
Pois não espere
Não espere para amar
Não espere para viver
Lembre-se,
Que o caminho se abre
Aos que tem coragem
Para começar
Faz sua trilha
Se faz caminhar
Quem é sábio não aguarda
E quem é vivo não espera
Sabe que são das flores abertas
Que se faz uma primavera

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Hoje só quero celebrar
Celebrar a noite de calor
Celebrar a reconstrução
E a reconstrução da reconstrução
Celebrar a mente positiva
A disposição
E a amizade
O mar, o barulho do mar
A lembrança do mar
O suor e a satisfação
Celebrar a mim
E celebrar você

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Olho para a mesa e está tudo lá
O extrato bancário, um pano de prato velho
Jogado, que eu usei para limpar a boca
A casa está vazia e está tudo em silêncio
E o silêncio me faz recordar
Da última briga que tive
Chata como todas as outras
Chata como aquele extrato bancário
E aquele pano de prato sujo
Penso em arrumar a mesa
Mas pego as chaves do carro
E vou embora dali.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Carpe Diem

Com um pé no ontem, outro no amanhã
Caminho com passos de equilibrista:
Se pendo para um lado, arqueio meu corpo
Por inteiro,
Para não tropeçar no passado
Se piso em falso, logo sei
Busquei apoio no futuro,
E quase tombei

Meu caminho é uma corda bamba
Sem começo, nem espaço,
E nela, o melhor que faço
É firmar meus pés e agarrar a vida
Esta corda infinita
Onde não há começo, nem atraso
Há apenas o momento e a certeza
Do agora
E do acaso